sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Companheiros pela Eternidade


Encosto a cabeça na areia, olho para o vasto céu azul, e me lembro daqueles que passaram por mim e deixaram sua assinatura. Não foi uma simples assinatura num gesso de um braço quebrado. Foi um marco, uma referência da qual daquele ponto em diante razão e emoção ganhariam uma nova direção.  Um afago, um abanar de rabos e uma boa lambida. Um latido que alerta, um mio que desperta.

Olhares se cruzam, e as cabeças se projetam, pés e patas se movem, sem hesitar, para se encontrarem num estender de mão e uma cheirada, carícias e rabinhos abanando. A afinidade se manifesta pura e imediata, sem julgamentos, apenas pelo que ambos somos. Eles nos seguem, não por sermos seus donos, e sim pela presença, por poder estar ao nosso lado, para tentar escalar nossas pernas, encostar a cabeça em nossos colos, lamber nossos rostos, tudo para nos agradecer pela companhia. E porque anseiam, quando partimos, por nosso retorno.


Animais humanos que aprendem, com seus animais amigos, a despirem as mais duras carapaças. Aprendem a ser e a estar juntos. A olhar para outra vida e, mesmo que a julguem singela    (ou talvez por isso mesmo), reconhecer seu brilho particular. Cultivar a paciência, reconhecer e dedicar atenção às suas necessidades especiais. Se comunicar sem palavras. Dar e, principalmente, receber afeto (o que nós humanos, diga-se de passagem, temos muita dificuldade em fazer). Todos esses aprendizados se manifestam de maneiras profundas na alma, e só quem passa por eles, compreende o quão importante foi à presença do animal amigo.

Imbuída de sabedoria a natureza se encarrega de manter o movimento dinâmico, pelo qual a harmonia é mantida. O movimento de germinar, florescer e perecer que caminha junto ao existir. É chegado o tempo de se despedir. E dizemos até logo a nossos companheiros, assim como dizemos para o barco que se lançou ao oceano, e que se afasta para além do horizonte e foge à vista, em direção às águas desconhecidas da eternidade. Mas não ficamos sozinhos na praia: ganhamos momentos inesquecíveis, que frente às situações mais difíceis da vida emergem para nos fortalecer e dar animo para o caminhar, até que chegue o nosso momento de tomarmos o barco e encontrá-los nas águas eternas
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"Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós." Saint-Exupéry 

Diálogos da Madrugada

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A Queda


      Olhe! Lá em baixo... Lá está onde quer chegar. Em um instante, perceba se suporta a queda, mire onde quer cair.  Salte!... Já?... Já!
       Não demore entre a sugestão e a decisão, entre a decisão e a ação. Não, Não perca-se em conjecturas, ponderações do que nem aconteceu. São um infinito de ilusão que alimenta aos receios, que, muito grandes, fazem sucumbir diante de sí o ímpeto de agir.  Não dê tempo para o medo represar a energia que traz ação, pois é a ação a única e gloriosa ferramenta de fazer a vida acontecer.
       A ação é o salto. Cujo objetivo - não engane-se, como enganam-se muitos - é o momento da queda, não a aterrissagem. A queda é sucumbir diante de uma paixão, é o momento entre começar a dizer o que está engasgado e ter a resposta, o momento entre o romper da inércia e a chegada ao desconhecido. É a libertação mais sublime, a libertação do íntimo, da alma. Onde, confortados pela certeza de que naquele momento não há nada senão o acaso, soltamo-nos, ainda que só por um instante, das amarras da preocupação em controlar o destino, e permitimos que a vida flua plena em nós. É esse o momento em que há graça em viver.
       E a aterrissagem, lá onde queríamos chegar, não importa? É claro que sim! Mas não importa como ela acontece, ou se o lugar em que caimos é, afinal, onde queríamos estar. O que importa, é que se faça dela uma oportunidade. De que? Ora... De saltar de novo!


                                                                 Autor:  Diálogo da Madrugada

domingo, 2 de setembro de 2012

A Inquietude da Mente


De olhos fechados, diante do grito ensurdecedor do silêncio, da perturbação do calor abafado da noite, o confortável refúgio da cama desaparece, o travesseiro  endurece com o peso dos pensamentos efervescentes que borbulham na mente, se volatizam e se aglutinam na escuridão do quarto, formando sombras que rugem e se movem. Sombras que rastejam e se emaranham nas entranhas num intricado nó, se reúnem num farfalhar de vozes aprisionadas na garganta que querem se libertar em gritos oprimidos. Não contentes elas se agarram ao peito, tolhem o ar e pressionam o coração, a aflição pede um copo da água. A sensação do frescor da água percolando pelo corpo da a pausa necessária para a mente se dispersar dessas formas e reestabelecer o vigor para tentar diminuir o peso dos pensamentos.

          A mente é como mil ratoeiras armadas em um pequeno quarto, prestes a colidirem ao menor sinal de uma delas ter sido acionada. A tensão acumulada às molas, clamando por liberdade, é análoga a imaginação. Crianças, descoordenadas, jogam bola em frente ao quarto de portas abertas, essa é uma circunstância. A bola rola em direção ao quarto, e com a intensidade certa para liberar a trava, toca uma única armadilha, que estrala num pulo e desencadeia um processo, violento, de liberação das outras travas, que num estardalhaço povoam o quarto com ratoeiras saltitantes. Assim as circunstâncias brincam com razão, memória e sensação, igual as crianças, imprevisíveis, manipulam seus brinquedos, desvencilhadas das responsabilidades e rotinas.
Respostas para as perguntas, e perguntas para as respostas, ideias e antilogias, teses e antíteses. Tal como as ratoeiras, elas encontraram ambiente propício para se manifestarem, a madrugada. Livre dos barulhos e frenesis do dia movimentado, ela se constitui no momento de quietude externa para o mergulho em nós mesmo, num diálogo sincero com o íntimo, onde a imaginação encontra espaço para ser liberada num tsunami criativo, tanto de ideias construtivas quanto autodestrutivas. A circunstância, aqui, é a mente inquieta na busca, incondicional, pela verdade da existência, que deixa-nos expostos, de portas escancaradas para os encontros e desencontros que irão ativar o mecanismo todo. Encontros e desencontros que representão eventos marcantes: como a entrada e saída de pessoas em nossas vidas, trabalhos que deixamos de fazer e os que virão, a inércia destrutiva perante a existência, o movimento incerto e misterioso da vida. Uma vez desencadeado o processo de efervescência de pensamentos, de liberação das travas das ratoeiras, tentar conte-lo seria imprudente, basta apenas cultivar a paciência que irá fornecer as pistas para o restabelecimento das faculdades da mente, que nunca mais voltará ao estado anterior, mas seguirá para um novo começo.


Autor: Diálogo da Madrugada