domingo, 2 de setembro de 2012

A Inquietude da Mente


De olhos fechados, diante do grito ensurdecedor do silêncio, da perturbação do calor abafado da noite, o confortável refúgio da cama desaparece, o travesseiro  endurece com o peso dos pensamentos efervescentes que borbulham na mente, se volatizam e se aglutinam na escuridão do quarto, formando sombras que rugem e se movem. Sombras que rastejam e se emaranham nas entranhas num intricado nó, se reúnem num farfalhar de vozes aprisionadas na garganta que querem se libertar em gritos oprimidos. Não contentes elas se agarram ao peito, tolhem o ar e pressionam o coração, a aflição pede um copo da água. A sensação do frescor da água percolando pelo corpo da a pausa necessária para a mente se dispersar dessas formas e reestabelecer o vigor para tentar diminuir o peso dos pensamentos.

          A mente é como mil ratoeiras armadas em um pequeno quarto, prestes a colidirem ao menor sinal de uma delas ter sido acionada. A tensão acumulada às molas, clamando por liberdade, é análoga a imaginação. Crianças, descoordenadas, jogam bola em frente ao quarto de portas abertas, essa é uma circunstância. A bola rola em direção ao quarto, e com a intensidade certa para liberar a trava, toca uma única armadilha, que estrala num pulo e desencadeia um processo, violento, de liberação das outras travas, que num estardalhaço povoam o quarto com ratoeiras saltitantes. Assim as circunstâncias brincam com razão, memória e sensação, igual as crianças, imprevisíveis, manipulam seus brinquedos, desvencilhadas das responsabilidades e rotinas.
Respostas para as perguntas, e perguntas para as respostas, ideias e antilogias, teses e antíteses. Tal como as ratoeiras, elas encontraram ambiente propício para se manifestarem, a madrugada. Livre dos barulhos e frenesis do dia movimentado, ela se constitui no momento de quietude externa para o mergulho em nós mesmo, num diálogo sincero com o íntimo, onde a imaginação encontra espaço para ser liberada num tsunami criativo, tanto de ideias construtivas quanto autodestrutivas. A circunstância, aqui, é a mente inquieta na busca, incondicional, pela verdade da existência, que deixa-nos expostos, de portas escancaradas para os encontros e desencontros que irão ativar o mecanismo todo. Encontros e desencontros que representão eventos marcantes: como a entrada e saída de pessoas em nossas vidas, trabalhos que deixamos de fazer e os que virão, a inércia destrutiva perante a existência, o movimento incerto e misterioso da vida. Uma vez desencadeado o processo de efervescência de pensamentos, de liberação das travas das ratoeiras, tentar conte-lo seria imprudente, basta apenas cultivar a paciência que irá fornecer as pistas para o restabelecimento das faculdades da mente, que nunca mais voltará ao estado anterior, mas seguirá para um novo começo.


Autor: Diálogo da Madrugada

Um comentário:

  1. E ainda nos resta algo de bom...as ideias, quer sejam construtivas ou autodestrutivas, fazem com que nossa mente nunca mais volte ao "tamanho" original. Devemos nos preocupar quando não observarmos mais em nós tais inquietações, pois isso revelará que perdemos a essência da vida e da vontade de viver.

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